Um escritor, um legado...

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Página dedicada à obra (Conto e Poesia) do escritor baiano de Vicente José Maciel

DERIVA


À deriva no mar do tempo
Levado por suas correntes
Mudando a todo momento...

Arrastado pela inércia
Pouca interferência dos ventos
Sentimentos que sopram
Brisa ou furacão...


Barco Pequeno
Insignificante face aos tormentos
Mar sem fim...


Aos poucos o barco vai se estragando
Viagem indeterminada!
As velas suspensas pouco mudam a rota
Encontros e despedidas
Cedo ou tarde não sobra nada!


Sem norte, sem rumo...
As velas apenas mudam de correntes Não há chegada!
Pouco adianta ajeitar as velas
No mar do tempo tudo passa!


José Maciel


ENCONTRO TRANSCENDENTAL


   Aos poucos o crepúsculo introduzia a noite. As folhas das palmeiras ficavam com um verde enegrecido. A sinfonia dos cantos mais lindos dos pássaros parecia dominar o ambiente junto à penumbra que se alastrava cobrindo a praia e, aos poucos, o mar. Estranho, não havia muitas aves, umas poucas faziam uma sinfonia suave nas palmeiras próximas. Qualquer ser humano que ali se encontrasse acreditaria estar no Éden. Tudo muito calmo e lindo.
   Ele sentado, refletindo a observar a mansidão das ondas, não sabia por que se encontrava ali. Nem mesmo sabia onde estava! Embora sentisse uma paz interior devido ao ambiente calmo em seu redor, como ele sempre gostava, doía-lhe um aperto no peito como se a solidão cravasse as unhas no coração – saudades.
   A noite tinha invadido como um cobertor sobre a terra. O horizonte que havia ficando cada vez mais escuro, onde o mar parecia tocar o céu, começava a ficar claro. Seus pensamentos voavam. A imagem dela não saia de sua cabeça. Amor proibido... Remorso, medo, saudade, paixão, tudo se misturava em um único sentimento a lhe torturar. Olhou novamente o horizonte... Já fazia algum tempo ali sentado. Dispersando a sombra que cobria tudo, a lua grandiosa surgia refletindo na água sua beleza. A lembrança dela continuava... Como esquecê-la não sabia, mas era preciso! Por que ela? Logo ela... Comprometida! Poderia estar colocando a vida de ambos em risco. Queria poder esquecê-la, mas não podia, não sabia como...
   Pouco acima das águas o globo lunar grande, redondo, amarelo, deixava-o aflito. Não conseguia se dominar... Queria ela ao seu lado. Nada mais importaria, queria ela ali e pronto! Nem se lembrava dos riscos. A lua, o mar, as ondas, tudo tão lindo que só faltava ela para se tornar o mais perfeito paraíso.
   De repente passos calmos vinham em sua direção pela areia da praia. Seria ela? Não podia ser... Como? Ela, ali? Ao aproximar ele se levantou, é ela! Um arrepio tomou-lhe o corpo. Não soube se foi pela brisa que lhe tocava afetuosamente, ou por sua presença. Ela se aproximava. Não podia ser... Alucinação! Ela estava ali... Linda, os cabelos pretos pareciam brilhar à luz da lua. Com um vestido branco movimentado pela leve brisa, suas curvas apareciam como a grandeza delirante de uma deusa grega. Seus lábios vermelhos, embora sem batom, estavam como uma cereja molhada pelo orvalho. Perfeita, o vestido com finas alças seguravam fragilmente aquele aéreo tecido que cobria parcialmente os seios e descia para desenhar detalhadamente todo o corpo. A pele macia como pétalas de rosa, fazia-a a mulher mais linda que conhecera. Estava delirando? Não, não podia ser...
   Aproximaram-se calmamente... Ele adiantou-se para falar, mas ela pôs os dedos nos lábios a se abrirem e pediu que calasse. Ele já considerava um dos melhores momentos da sua vida... Os olhos se encontraram como se dominassem o mais profundo segredo, como se as almas por eles se conversassem. Os lábios se aproximavam devagar e aos poucos foram se tocando, um beijo inesquecível começou... Um êxtase sobre-humano tomou os dois corpos. Os olhos foram fechados por um prazer transcendental... Em segundos uma viagem inesquecível...
   Porém um grande susto os separou rapidamente. Um som ensurdecedor entrava em seus tímpanos alertando quiçá a iminência do perigo. Seria o companheiro dela? Seria a morte se aproximando? Um pavor envolveu a alma, temia apenas por ela...
   O coração, pulando como touro bravo no rodeio, parecia querer sair do peito. Nenhum
mal devia acontecer a ela... O barulho continuava... Ele abriu os olhos abruptamente...
Uma luz ofuscante deixou-lhe quase cego... Em sua cabeceira o despertador lhe acordava – seis horas da manhã.
Por José Maciel


FRIO DA SOLIDÃO


Frio! O frio da solidão o envolve
No tristonho peito grita a dor da saudade
O medo de perdê-la o devora
Loucuras! Nem a teve de verdade!

Ébrio, louco ou apaixonado?
Por uma beleza rara enfeitiçado
Quão intensa grandeza da deusa humana...
Condenado a viver na ilusão
Pelo doce veneno da paixão
No coração por um olhar ejetado!


Nos tentáculos da saudade sufocado...
Alma ébria por simples recordação
De céleres toques de lábios arrebatados
Em êxtase infinito o coração
Desafiando tempo, destino e espaço
Reacendendo na alma a esmagadora paixão!

Sem volta, sem rumo, sem passagem
Em milésimos de segundo inesquecível viagem
Num universo inteiro de fantasias...
Lembranças, tristeza, nostalgia
Em noite com luar e estrelada
Sonhos de reviver tudo outro dia!






Volta a razão e contagia
De angústia o peito solitário
Afligindo com lembranças do abandono
Pelo triste destino determinado!

Quando a deusa idolatrada o enfeitiçou
Nada mais poderia ser mudado...
Olhando a lua desenganado
Lembra tristonho quão rápido tudo passou
Com a vontade de resgatar o passado
Fica a alma solitária condenada pelo amor!


Por José Maciel



 
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